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26 de Maro, 2018
Última Ceia – Um ritual de passagem
Diogo Noronha
26 de Maro, 2018
Última Ceia – Um ritual de passagem

Reinterpretar a mais famosa de todas as ceias. Foi este o desafio que o Canal História me lançou e que deu origem ao programa de televisão que está a ser emitido no canal e ao menu que, até dia 1 de Abril, pode ser degustado no Restaurante Pesca. De inspiração serviram episódios bíblicos, mas também o mar e a nossa paixão pelo melhor peixe do mundo.

Comecei a pesquisa para a recriação da Última Ceia olhando para o significado da palavra Páscoa, que para os hebreus quer dizer  passagem. Muitos historiadores defendem que esta festa de passagem era comemorada anteriormente na região do Mediterrâneo, sobretudo pelos gregos, para festejarem a passagem do inverno para a primavera, a passagem de um tempo de trevas para as luzes. Geralmente, esta festa era realizada na primeira lua cheia da época das flores.

Para os hebreus, a data tem um significado muito importante, pois assinala o êxodo do Egito, por volta de 1.250 a.C., onde foram mantidos como escravos durante anos. Como celebração, os judeus fazem e comem o matzá (pão sem fermento) para lembrarem a rápida fuga do Egito, quando não sobrou tempo para fermentar o pão.  Ainda sobre o episódio da fuga, diz o Antigo Testamento, Moisés abriu o Mar Vermelho para deixar passar os Judeus, tendo fechado logo em seguida e matando os soldados do faraó que os perseguiam.

Para os primeiros cristãos, a data assinala a ressurreição de Jesus Cristo quando, após a morte, sua alma voltou a se unir ao seu corpo. O festejo era realizado no domingo seguinte a lua cheia posterior ao equinócio da Primavera.

Por outro lado, na Idade Média os antigos povos europeus, nesta época do ano, homenageavam Ostera, ou Esther – em inglês, Easter quer dizer Páscoa. Ostera é a Deusa da Primavera, que segura um ovo na sua mão e observa um coelho, símbolo da fertilidade. A deusa e o ovo que carrega são símbolos da chegada de uma nova vida. A celebração de Ostara comemora a fertilidade, um tradicional e antigo festival pagão que celebra o evento sazonal equivalente ao Equinócio da primavera. Algumas das tradições e rituais que envolvem Ostara incluem fogos de artifícios, ovos, flores e coelho. Ostara representa o renascimento da terra, muitos de seus rituais e símbolos estão relacionados à fertilidade. Ela é o equilíbrio quando a fertilidade chega depois do inverno. É o período que a luz do dia e da noite têm a mesma duração.

Ostara é o espelho da beleza da natureza, a renovação do espírito e da mente. Os símbolos tradicionais da Páscoa vêm de Ostara. Os ovos, símbolo da fertilidade, eram pintados com símbolos mágicos ou de ouro, eram enterrados ou lançados ao fogo como oferta aos deuses. É o Ovo Cósmico da vida, a fertilidade da Mãe Terra. Os ovos não eram comestíveis, como se conhece hoje. Era mais um presente original simbolizando a ressurreição como início de uma vida nova. A própria natureza, nestes países, renascia florida e verdejante após um rigoroso inverno.

A partir destas diferentes visões da Páscoa, e não havendo certezas de como terá sido a ementa da Última Ceia, propus-se recriar um menu que reflectisse sobretudo a noção de ritual de passagem, de renascimento, de ressurreição, de nova vida. O menu, dividido em quatro momentos, começa com um pão ázimo de trigo barbella, sésamo e cominhos, mexilhão fumado, piso de urtigas e azedas. Segue-se uma entrada de tártaro de atum combinado com salada de trigo tufado, ervas frescas e avelãs. Por ter mais de 50 milhões de anos de existência, para prato principal escolhi o tamboril, cozinhado na brasa, em homenagem ao fogo sagrado do Sábado Santo, que acompanha com cenouras brancas, raiz de salsa, caldo de açafrão, gengibre, algas e plantas marinhas. Para terminar, a proposta é um ovo de chocolate recheado com açúcares utilizados na altura, daí a escolha do mel, do pólen e do damasco, combinados de maneira a representar o símbolo da fertilidade e da Páscoa, o ovo.

O processo de pesquisa passou pelo Porto de Sesimbra, pela Quinta do Poial, pelas vinhas de Azeitão e pode ser visto no Canal História ou saboreado nas mesas do Pesca até ao próximo dia 1 de Abril. Bom apetite e boa Páscoa.

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